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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A EDUCAÇÃO NA ERA DIGITAL


Outubro/2002

A tecnologia informático-mediática facilita a difusão das informações em volume e velocidade, possibilitando uma comunicação eficiente das pesquisas, nos mais diversos campos da ciência. O computador se faz presente hoje na produção e difusão de todas as formas de conhecimento vigente da humanidade. E a informática favorece diferentes maneiras de se relacionar com o outro e com o conhecimento. É mais um meio de contato social, desafiando e estimulando o intelecto. O uso do computador vai propiciar o desenvolvimento de operações intelectuais: o uso da palavra, da escrita, a capacidade de comparar e diferenciar, atenção, abstração, formas de organização do pensamento, etc.

Cabe à escola promover uma reflexão sobre as novas tecnologias e possibilitar aos professores/as e alunos/as o uso dessas tecnologias dentro da unidade de ensino. O papel da escola é o de dar subsídios para que os aprendizes possam posicionar-se frente aos dispositivos automatizados, informacionais e telemáticos. Precisamos nos ambientar com esse ciberecossistema e possibilitar uma socialização de conhecimentos em informática, entre todos os envolvidos no processo educacional: corpo administrativo, docente e discente. E todos juntos aprendermos a dividir responsabilidades, sugerir, decidir, participar na definição do que se pretende estudar e aprender e de que forma fazê-lo.

Precisamos aprender a aprender, nos tornarmos aptos a enfrentar e decidir a cada situação que surja e refletir sobre os processos ocorridos. Precisamos todos nós: corpo administrativo, docente e discente aprendermos a trabalhar coletivamente e de forma interdisciplinar.


A escola deve ser um ambiente rico em recursos tecnológicos que possibilitem o desenvolvimento da capacidade intelectual, respeitando as características e o tempo de cada um. Que promova uma educação transdisciplinar.



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Educar para uma sociedade (a)tecnológica

Luiz Carlos Neitzel
Mestre em Mídia e Conhecimento
Acessado em 26/10/2002

 
[1] Pedagogo com habilitação em Administração Escolar de 1º e 2º grau e Magistério das Matérias Pedagógicas de 2º grau. Professor Facilitador em Informática Aplicada à Educação pelo PROINFO – MEC – NTE – MG2

A EDUCAÇÃO FRENTE ÀS NOVAS TECNOLOGIAS: A LÍNGUA E A CULTURA COMO VEÍCULOS EXTRAFRONTEIRAS PROMOTORES DA NOSSA ECONOMIA


Março/2002

“A essência da tecnologia tem
pouco a ver com a tecnologia”.

Para Figueiredo (1995) a educação tem que se adaptar às necessidades das sociedades. E o desafio atual é a adaptação da educação às grandes mutações sociais, culturais e econômicas que ocorrem devido ao advento das novas tecnologias. Adaptação esta indispensável e urgente, de caráter social, cultural e econômico, antes que tecnológico.

As economias hoje transitam de lógicas industriais para lógicas do saber, e a construção do saber passa a ser uma atividade social integrada, e a aprendizagem adquirida nas escolas representa uma parcela cada vez menor da aprendizagem adquirida no dia-a-dia, através das tecnologias de comunicação e informação espalhadas pelo mundo. A eclosão das tecnologias multimídia, suportadas por poderosas indústrias culturais, e as potencialidades da interação através de redes de dados trazem oportunidades nunca vistas de auto-educação e educação à distância, não só na idade escolar, mas ao longo de toda a vida. Para o autor as escolas estão mal equipadas para atender a estes desafios. E essa escola precisa ser reinventada, precisa mudar o seu papel, em vez de ditadora de conteúdos, se preocupar agora em dar suporte para a autonomia do aluno, para que este se torne um autodidata. A escola tem que estar familiarizada com recursos e ferramentas da informática, e saber integrar estes recursos e estas ferramentas na ação educativa do dia-a-dia. Dando oportunidade aos alunos de acesso aos dados e de interação social no ciberespaço. E nossos alunos agora vão aprender fazendo ao invés de aprenderem ouvindo como tem acontecido até então. É uma educação interativa, colaborativa e cooperativa, numa constante construção coletiva do saber, partilhando problemas e necessidades. Aprendemos melhor quando fazemos e a aprendizagem corresponde à criação efetiva do saber através de um esforço pessoal e da interação social. As redes de dados vão oferecer material para conjeturas e refutações, favorecendo as conclusões ainda que provisórias, pois todo conhecimento e todo saber é provisório. E este saber, com os recursos das novas tecnologias, podem ser compartilhados com habitantes de diferentes regiões e países, favorecendo a construção coletiva do conhecimento, através de contatos, projetos, parceiros, endereços, etc. E o professor agora, para o autor, tem que trabalhar a interdisciplinaridade com seus alunos.

E a escola poderá através da Internet integrar-se com toda a comunidade escolar, através do site e do e-mail. Além de podermos através de uma rede solidária estar em permanente contato: ensino superior, médio e fundamental.

Com a globalização da economia, da comunicação e da informação essa adaptação da escola se torna indispensável, pois a língua e a cultura são veículos extrafronteiras promotores da nossa economia, daí a urgência de se manter nossa presença ativa nas redes eletrônicas internacionais.

  REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Departamento de Engenharia Informática
Universidade de Coimbra
Resposta, enviada por correio electrónico, às perguntas da jornalistaPaula Banza, da revista Forum EstudanteSó parcialmente reproduzida na revista.
Coimbra, 5 de Novembro, 1995

[1] Pedagogo com habilitação em Administração Escolar de 1º e 2º graus e Magistério das Matérias Pedagógicas de 2º grau. Professor Facilitador pelo PROINFO – MEC.

A EDUCAÇÃO E A CONSTRUÇÃO DA ORDEM DEMOCRÁTICA


Josué Geraldo Botura do Carmo[1]

Fevereiro/2002

“Formar alunos com consciência democrática e internacional
é a única maneira de garantir a construção
de um mundo de justiça e paz”
Bernardo Toro

Para Bernardo Toro, filósofo e educador colombiano, são oito as competências básicas que devem ser desenvolvidas nos alunos na atualidade:  
  1. dominar as linguagens utilizadas pelo homem;
  2. saber resolver problemas;
  3. analisar e interpretar fatos;
  4. compreender o entorno social e atuar sobre ele;
  5. receber criticamente os meios de comunicação;
  6. localizar e selecionar informações;
  7. planejar e decidir em grupo;
  8. cultivar uma mentalidade internacional.
É importante criarmos na escola um ambiente favorável para o convívio dentro do regime democrático, com base na tolerância: o respeito à diversidade cultural, formando jovens capazes de criar, em cooperação com os demais uma ordem social na qual se possa viver com dignidade. Para o autor democracia é o regime em que as leis e as normas são elaboradas pelas mesmas pessoas que vão obedecê-las, pois a ordem construída em conjunto produz liberdade.
Desta forma as normas dentro de uma escola devem ser elaboradas pela comunidade escolar: alunos, pais de alunos, professores e demais funcionários.  A participação na elaboração dessas normas vai fazer com que as pessoas as obedeçam e se sintam livres. As leis impostas geralmente são burladas.
É importante incentivar trabalhos em grupos cooperativos dentro da escola, desenvolvendo a capacidade de se aprender a buscar soluções coletivamente. Dando liberdade para que todos se organizem em grupos e decidam o que vão estudar e como desejam trabalhar. O importante é estarmos cientes de que cada qual tem seus interesses, seus afetos, suas expectativas e suas capacidades. E cada um, em grupo deve se esforçar para atingir sua meta, e ajudar os demais participantes a atingir a sua também. É necessário estar sempre com rico material de pesquisa em mãos, dentro e fora de sala de aula, para que haja um bom rendimento. Assim estaremos formando pessoas democráticas, com capacidade de organização e decisão, capazes de buscar informações. Outro trabalho fundamental dentro da escola é o incentivo à produção de textos, se todos os dias um estudante escrever seis linhas sobre qualquer assunto, em um ano terá escrito pelo menos mil frases e em cinco anos terá um livro pronto.
Para tal é preciso coerência entre políticas públicas, educação e formação de educadores. E acreditarmos que é bem melhor vivermos em um mundo com pessoas conscientes. Há um longo e árduo caminho a percorrer para se construir uma sociedade democrática.
Nós da América Latina somos mestiços e temos dentro de nós a África, a América e a Europa, nada nos é estranho, porque temos tudo dentro de nós e em nossas arquiteturas, nos espaços e nos símbolos. Quando convivemos com a diversidade tornamo-nos mais tolerantes, aprendemos a ver o outro como sendo da mesma espécie e assim somos capazes de  resolver os conflitos com menos violência. Quando eu sei que o meu próximo é igual a mim, eu não o mato, não o destruo, não deixo que seja pobre e nem que sinta fome. Essa convivência social se aprende e se constrói sem agressões, comunicando-se, interagindo e decidindo em grupo, cuidando de si, do seu entorno e valorizando o saber cultural.
Somente com o auxilio  da educação poderemos reverter esse quadro social que vivemos hoje, nos preparando juntamente com os jovens estudantes para a vivência da solidariedade e da ternura, aceitando o outro da forma como ele é. Nos norteando sempre pelos direitos humanos e sabendo que as pessoas comuns é que são capazes de criar a ordem na qual elas mesmas desejam viver,  sem necessidade de iluminados e messias.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Bernardo Toro
filósofo e educador colombiano
PRECISAMOS DE CIDADÃOS DO MUNDO   
(Entrevista)

 Nova Escola ed.149 jan.fev.2002 FALA MESTRE! Ed. Paola Gentile

[1] Pedagogo com habilitação em Administração Escolar de 1º e 2º grau e Magistério das Matérias Pedagógicas de 2º grau. Professor facilitador pelo PROINFO - MEC

A EDUCAÇÃO DE QUALIDADE HOJE (Uma leitura do III Congresso Internacional de Educação realizado em Belo Horizonte MG, em 15/09/2005)


Setembro/2005

"... educação deve servir para que as pessoas e os
grupos atuem no mundo, e para que se sintam bem
atuando nesse mundo: conhecendo-o, interpretando-o,
transformando-o, em uma relação fértil e criativa
entre as pessoas, esses grupos e o ambiente".
Braslavsky p.11
 A rápida mudança do mundo com o advento da sociedade da informação e da comunicação traz consigo novos desafios educacionais para o século XXI, com a necessidade de uma educação de qualidade para todos, pois todos estão tomando consciência de que a educação de qualidade é um direito inalienável, e que nenhuma forma de educação excludente merece ser qualificada como de qualidade. O acesso massivo aos sistemas educacionais tem causado uma maior inclusão e um deslocamento cada vez maior pela demanda de uma educação com qualidade. Grupos populacionais que antes não tinham acesso nem mesmo à educação primária, hoje já permanecem anos nos sistemas educacionais. Não é possível que a escola continue atuando com modelos criados em séculos passados, que não são mais capazes de atender às demandas do presente momento.  
Cabe aos educadores conhecerem o mundo tal como é hoje, para que se possa ter uma visão das perspectivas futuras. Precisamos fazer uma reflexão de como as pessoas se sentem no mundo neste  momento e qual a capacidade que julgam ter para transformá-lo e encontrar nele um lugar para si. 
Vivemos um momento inédito, cheio de surpresas inevitáveis[2]: tendências que a grande maioria das pessoas não esperava e que pouco a pouco tornam-se cada vez mais evidentes. Estas tendências estão estritamente ligadas a questões relacionadas ao conhecimento, aos avanços tecnológicos e suas implicações. Dessa forma assistimos à possibilidade de um aumento consistente na expectativa de vida das pessoas, implicando também em uma melhor qualidade de vida, e idosos com uma vida ativa, ocupando postos de trabalho. Isso nos traz preocupações: como os jovens vão se integrar ao mercado de trabalho, se os mais velhos não vão embora e o mercado não se expande? Uma outra surpresa é o aumento e a aceleração da mobilidade das pessoas. Muitas já vivem em um determinado país e trabalham para empresas ou pessoas que vivem em outro. Esse processo de deslocamento físico ou virtual das oportunidades de trabalho beneficiará os que estejam mais preparados para essa mobilidade: aqueles capazes de interagir melhor interculturalmente, que conhecem mais idiomas e com capacidade de utilizar as novas tecnologias com perspicácia, e que tenham flexibilidade. Enfim, todos aqueles capazes de estabelecer conexões cognitivas através da mobilidade virtual, e emocionalmente aos problemas de seu entorno físico imediato. 
O conhecimento hoje cresce de maneira exponencial. Parte dos conhecimentos mais significativos não existia quando os professores atuais se formavam para exercer sua profissão. Cada vez mais conceitos e procedimentos devem ser aprendidos e desaprendidos ao longo de nossas vidas. Da mesma forma assistimos ao aumento das comunicações de forma exponencial. Estamos cada vez mais próximos do mundo todo, em uma velocidade nunca vivida antes. Cada ponto do planeta associa-se a outros por diversos mecanismos, provocando interdependências, provocando a competitividade internacional e o aumento da desigualdade social, embora haja perspectivas de formas de cooperação.  
Essas surpresas inevitáveis modificam significativamente o lugar das pessoas no mundo e o perfil educativo que as pessoas necessitam e demandam. E podemos afirmar que uma educação de qualidade para todos poderá combater a desigualdade, a violência e promover restauração do meio-ambiente. Pois somente uma educação de qualidade para todos poderá difundir uma aprendizagem em alta escala daquilo que é necessário para uma vida melhor no planeta, evitando catástrofes e estimulando tendências favoráveis para uma melhor qualidade de vida para todos.  
Assim as escolas psicológicas e pedagógicas consideram dimensões da possibilidade de uma pessoa ser feliz, de sentir que tem um lugar legítimo no mundo: a capacidade de explicar a própria vida e o mundo, a auto-estima e a estima pelos outros, a possibilidade de realizar um projeto, o domínio das capacidades necessárias para concluir um projeto, e estratégias para relacionar-se com os demais de maneira saudável. Para tal precisamos ter acesso a informações sobre o passado, reconhecer nossas capacidades e nossas limitações, reconhecer o que se pode e o que não se pode fazer. A escola precisa repensar o seu tempo e o seu espaço. A educação de qualidade para todos deve ser hoje uma educação prática, racional e emocional: que permita que todos aprendam o que necessitam aprender, no momento oportuno de sua vida e de suas sociedades, e que façam com felicidade, com capacidade de atravessar momentos de confusão, de tristeza e de sofrimento para conquistar objetivos desejados de perspectiva e transcendência, em suas mais variadas formas. Uma educação relevante para as pessoas, tanto objetivo quanto subjetivamente, que permita construir um sentido profundo e valioso de bem-estar e alcançar esse bem-estar durante o tempo em que estão na escola e quando saem dela.
É preciso que os governos valorizem a educação de seus povos e sua capacidade de aprendizagem, seus professores e professoras, como fazem os países campeões da qualidade da educação: Finlândia, Suécia, Bavária, Canadá, Japão e Coréia, segundo pesquisa do PISA[3]. Estimados por suas sociedades esses professores e professoras têm maior auto-estima e não se culpam por seus erros, e sim os corrigem e tiram proveitos deles. E esses profissionais que não se culpam de seus erros também não culpam seus alunos pelos erros que esses possam cometer, criando dessa forma um clima de bem-estar e felicidade. A convicção sobre as possibilidades da educação faz com que os professores valorizem seus alunos, independente de suas origens e de sua diversidade.
O trabalho em equipe em todos os níveis da escola como também em forma de alianças com outros agentes educacionais: família, empresas, meios de comunicação, pode também ser a chave do sucesso de uma educação de qualidade.
Para mim o que ficou bastante visível em termos de Brasil neste III Congresso Internacional em Belo Horizonte - MG é que temos uma população pouco letrada, daí a dificuldade da alfabetização das crianças. E que é de grande responsabilidade da escola, juntamente com políticas públicas sérias de barateamento e de distribuição de livros, jornais, revistas e de outros materiais impressos, pois a escola sozinha não dá conta de alfabetizar uma geração toda sozinha, uma vez que a família pouco tem podido colaborar, por falta de condições mesmo de fazê-lo. É preciso dedicar muita atenção e carinho neste momento a esta questão, e uma vez termos uma geração alfabetizada, este problema não existirá mais, pois todas as crianças já irão para a escola  letradas, como acontecem com aquelas que não têm dificuldade neste aspecto, porque vêm de famílias letradas, convivem com pessoas que fazem uso da leitura e da escrita, não tendo assim dificuldade de assimilação dessa linguagem. É preciso frisar neste texto que se conseguirmos alfabetizar uma geração acabaremos por vez com o problema do analfabetismo, como fizeram Cuba e Rússia. E a leitura é um veículo de transmissão de informações, é uma oportunidade para a reflexão, para a comunicação das emoções, e de instruções práticas. A leitura vai possibilitar a construção de seres mais autônomos e independentes, capazes de realizar conexões. E lembramos aqui Manuel Castells quando ele afirma que hoje o nível de desenvolvimento de um país é medido pelo seu grau de conexão. 
E o problema educacional brasileiro parece não ser, pela minha observação e experiência, um problema de métodos e técnicas de ensino, mas um problema de estrutura da escola. A alma do brasileiro é livre demais para adaptar-se a uma estrutura tacanha de sala de aula e à hierarquia da estrutura educacional.
  
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
III Congresso Internacional de Educação – Ler sem limites. Belo Horizonte: 15 de setembro de 2005.
BRASLAVSKY, Cecília. Dez fatores para uma educação de qualidade para todos no século XXI[4]. Madri: Fundación Santillana. São Paulo: Editora Moderna, 2005.
CARMO, Josué Geraldo Botura do. Grau de conexão & nível de desenvolvimento.
Acessado em 16/9/2005

[1] Pedagogo formado pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, com habilitação em Administração Escolar de 1º e 2º grau e Magistério das Matérias Pedagógicas de 2º grau. Professor Facilitador pelo PROINFO - MEC - NTE-MG2.
[2] SCHWARTZ, Peter. Inevitable surprises: Thinking ahead in a time of turbulence. New York, Gotham Books, 2001.
[3] O Programa Internacional de Avaliação de Alunos – PISA – é um programa de avaliação comparada, cuja principal finalidade é produzir indicadores sobre a efetividade dos sistemas educacionais, avaliando o desempenho de alunos na faixa dos 15 anos, idade em que se pressupõe o término da escolaridade básica obrigatória na maioria dos países. No Brasil, o PISA é coordenado pelo Inep – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais “Anísio Teixeira”.
[4] Semana Monográfica da Educação – Madri, 2004.


A CONSTRUÇÃO DA GESTÃO DEMOCRÁTICA NA ESCOLA PÚBLICA: UMA OUSADIA


JUN/2000
 “O diretor de unidade de ensino no sistema público
sempre foi um cargo de confiança do poder público
central ou local. Acompanhando a história, observamos
que ele sempre foi um dos mecanismos do jogo do
poder e da barganha política. A figura do diretor
escolar era uma das peças importantes no controle
dos docentes e da rede escolar. Encontramos vozes
isoladas que pressionam pela autonomia administrativa
 da escola e propõem como uma das medidas a autonomia
da função de direção”.
 Miguel Arroyo
(1983)
Para Anísio Teixeira, segundo LÔBO (1999), democracia é liberdade de pensar, para produzir a unidade de ação consentida e partilhada. A democracia só vai se realizar pela educação quando essa for compreendida como o processo de aprender a pensar, tornando-se capaz de partilhar a vida em comum e de dar a si e a essa vida comum a sua contribuição necessária e única. Para a autora a democracia não é só uma forma de governo, é acima de tudo um modo de vida. Nada deve ser imposto do alto, mas tudo deve ser resultado do pensamento partilhado de todos os envolvidos. Necessário se faz recuperar a escola como espaço democrático pelo debate, pela discussão, pela competência técnica, pelo currículo, pelos métodos de ensino e de disciplina, nas relações entre alunos, professores e diretores.
           Para ZUNG (1984) não se pode negar a ação política do administrador educacional em nome de uma racionalidade científica, pois ao negar essa ação política justifica-se a alienação do administrador das decisões de política educacional e faz dele um executor de decisões oriundas de instâncias superiores em nome da garantia da “unidade nacional”, desviando a visão do administrador dos reais problemas, que só se definem a partir da inserção da organização escolar em seu contexto social, político e econômico. Para a autora os problemas de administração escolar não são os mesmos da organização empresarial, pois a natureza do processo educativo não se confunde com a natureza do processo produtivo. Ela afirma que para que a sociedade se democratize é preciso democratizar as instituições que compõem a própria sociedade.
           E PARO (1998) parte da premissa de que o papel da educação é a transmissão do saber historicamente produzido, é a atualização cultural e histórica do homem e que ao homem não importa só viver, é importante também viver bem, com direito a desfrutar todos os bens criados socialmente pela humanidade. A escola, segundo o autor é uma das únicas instituições para cujo produto não existem padrões definidos de qualidade, devido a extrema complexidade que envolve a avaliação de sua qualidade. Ela pode articular-se com uma variedade infinita de objetivos, não precisando estar necessariamente articulada com a dominação que vige em nossa sociedade.
           A questão a que me propus responder foi: o que podemos fazer para através da escola podermos colaborar efetivamente para a construção da democracia? Entendendo por democracia um modo de vida onde todos os cidadãos (aqueles que vivem em determinado território) tenham direito de voz e de voto, participando das decisões que norteiam a sociedade em que vivem, não só pelo voto, mas também pela participação nas decisões e acima de tudo tendo oportunidade de acesso aos bens da sociedade construídos historicamente, sejam materiais ou intelectuais.
           A partir da reflexão desses textos, e com base no pensamento marxista que diz que a escola faz parte da superestrutura, estando a serviço do poder central com o objetivo da manutenção da infra-estrutura, da base de sustentação da elite, o que nos leva a pensar ser ela mais reprodutora do que transformadora na sociedade capitalista, e todo o aparato educacional contribuir para isso: políticas públicas, legislações, formação de educadores, parâmetros curriculares, avaliações, etc., tendo em vista ainda que         durante todo o período do curso de pedagogia a que me submeti (1996-2000), estiveram presentes questões desta natureza: autores que apontavam a escola como reprodutora, autores que apontavam a escola como transformadora, outros que afirmavam que a escola reproduz, mas também transforma e aqueles ainda que diziam que ela transforma, desde que haja permissão do poder central.
           Anísio Teixeira já afirmava na década de 20 ou 30, que só existirá democracia no Brasil quando se montar a máquina que prepara as democracias, que para ele é a escola pública.

           E nós também, estejamos no papel de alunos ou de educadores, ou mesmo de cidadãos sonhamos com a democracia: podermos ter acesso aos bens culturais construídos historicamente pela humanidade com a colaboração direta ou indireta de todos nós. Sonhamos com esse modo de vida, em podermos viver bem. E perguntamos: o que podemos fazer para através da escola colaborarmos efetivamente para a construção da democracia?

           E é esta pergunta que tentarei responder. Primeiro, ao meu ver, precisamos conquistar certos direitos: um salário digno para os trabalhadores da educação, um plano de cargos e carreira satisfatório e tempo para dedicar-se à profissão. E juntamente com isso uma administração participativa de todos os segmentos da escola: professores, pais de alunos, alunos, disciplinários, pessoal da secretaria, serviçais, vigias, todos participando do processo educativo com direito de se organizar e com espaço (físico e temporal) para tal dentro da instituição. Seria nada mais do que tentarmos viver a democracia dentro de um espaço pequeno para podermos saber vivê-la em um espaço mais amplo, na sociedade. E é preciso antes de tudo criar espaços para que os diversos segmentos possam se encontrar e discutir com bases teóricas e nas experiências de vida de cada um, para que se chegue a uma conclusão e possa planejar conjuntamente. Criar um conselho com representantes dos diversos segmentos para traçar planos para o desenvolvimento da escola com capacidade de decisão tanto no que tange ao pedagógico, quanto ao administrativo e ao financeiro – e com recursos, é claro, financeiros e humanos, pois “não haverá administração competente caso não haja recursos para serem administrados”.¹
           Portanto é necessário criar condições para que todos os segmentos da escola: professores, alunos, pais, pessoal da secretaria, vigias, serviçais, disciplinários, jardineiros participem democraticamente da tomada de decisões no que diz respeito ao destino da escola e de sua administração: currículos, métodos de ensino e de disciplina, programas, horários, etc.
              Se a escola foi tão eficiente (e aqui se entende por escola o sistema educacional brasileiro) em sua contribuição para promoção das desigualdades sociais, e que hoje está colhendo o que plantou, tendo que resolver conflitos de diversas ordens que acontecem dentro da instituição, porque conflitos sociais tendem a explodir dentro das escolas onde as famílias se encontram, a escola agora teria o papel de contribuir para a diminuição das desigualdades, e poderá ser eficiente, se houver vontade política, não das esferas governamentais, mas na esfera de cada unidade de ensino, vontade política de cada um nós mesmo enquanto categoria de profissionais da educação.
           Seria necessário tomar a democracia como um modo de vida, em que todos debatam e discutam os problemas coletivos, até que se chegue a um consenso e pensar o papel da escola como o de transmitir o saber historicamente produzido destacando o direito que todos têm de desfrutar os bens criados socialmente pela humanidade, instrumentalizando o aluno para poder participar, promovendo desta forma a diminuição das desigualdades sociais. A escola pública continua ainda formando indivíduos com a capacidade de silenciar, mesmo discordando, de não reivindicar coisa alguma e de se submeter a fazer um mundo de coisas sem sentido, sem reclamar. Indivíduos capazes de renunciar ao direito de pensar, desistentes de sua cidadania e do direito de exercer a política. E não dá para separar o administrativo do pedagógico, pois os dois aspectos se conjugam no político, e o pedagógico é reflexo do administrativo, dentro de uma instituição escolar. Dessa forma é necessária a autonomia do professor para planejar, executar e avaliar o seu trabalho, além de orientar os seus alunos e atender aos seus familiares. Para tal é preciso valorizar o trabalho do professor em termos salariais e dar a ele tempo para atualização pedagógica e para que ele possa planejar, executar e avaliar seus trabalhos e que ele tenha ainda um tempo em que possa conversar com seus alunos e familiares dos mesmos, em caso de necessidade de orientação.
           Assim se poderia abolir o serviço de supervisão escolar que foi criado no Brasil para planejar, avaliar e fiscalizar o trabalho do professor. Hoje, o professor planeja o seu próprio trabalho, avalia o processo e o resultado, e não necessita de fiscais, uma vez que a lei garante a pluralidade de idéias. O mesmo acontecendo com o serviço de orientação escolar que foi criado com o objetivo maior de se manter a desigualdade social; em nome da orientação vocacional, que determinava a profissão de cada um de acordo com a sua classe social e a necessidade do mercado no momento; mais que orientar os alunos. Hoje os professores fazem e muito bem o trabalho de orientação e numa nova perspectiva, o desejo é o de fazer diminuir as diferenças. E com a criação de um colegiado com amplos poderes de decisão, abole-se também o diretor escolar que culturalmente carrega consigo todo o autoritarismo da instituição. O poder de decisão seria do colegiado formado por todos os segmentos da escola e que teria um presidente eleito a cada ano, dentre os membros dos professores eleitos, pela comunidade escolar para compor o colegiado, com a função de representar a escola perante os órgãos oficiais e extra-oficiais, de desempatar voto, quando ocorresse empate e assinar documentos.
           Esta poderia ser uma forma de se iniciar o trabalho de democratização da gestão da escola. E a escola pública perderia esse caráter de "asilo" que ela tem hoje, servindo para guardar crianças para os pais poderem trabalhar, e recolhendo jovens e adultos para que não perturbem a "ordem", para assumir o trabalho de democratização da sociedade em um ambiente em que todos estariam ali na categoria de aprendizes do ofício de participar e de usufruir o bem comum, pois nenhum de nós sabe nem participar e nem usufruir o bem comum, ficamos sempre achando que pertence aos outros.
           É claro que isso não aconteceria assim tão facilmente, teria que ser construído, e como afirma Kuhn (1974), através de uma citação de Plank (1948)² , será preciso que muitos dos que crêem no antigo paradigma morram para se viver um novo paradigma, que seria uma nova visão do que é democracia.

1. ZUNG (1984)
2. "Uma verdade científica nova não é geralmente apresentada de maneira a convencer os que se opõem a ela... simplesmente a pouco e pouco eles morrem, e nova geração que se forma familiariza-se com a verdade desde o princípio" (PLANK, 1948 - In: KUHN, 1974).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARROYO, Miguel G. Administração da educação é um problema político.RBAE.  Porto Alegre, 1(9): 122-8 jan. /jun. 1983.
BECKER, Fernando. Modelos pedagógicos e modelos epistemológicos. In: SILVA,  Luiz Heron e outro (orgs.) Paixão de Aprender II.Petrópolis: Vozes, 1995.
KUHN, T.S. A função do dogma na investigação científica. In: DEUS, Jorge Dias de. A crítica da ciência. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.
LÔBO, Yolanda L. Administração escolar: lições anisianas. Rio de Janeiro, 1999. (mimeo).
PARO, Victor H. A gestão da educação ante as exigências de qualidade e
produtividade da escola pública. In: SILVA, L.H. (org.) A escola cidadã no contexto da globalização. Petrópolis: Vozes, 1998.
ZUNG, Acácia K. A. A teoria da administração educacional: ciência e ideologia. Cadernos de pesquisa. São Paulo, (48): 39-46, fev. 1984.

VER TAMBÉM:



[1] Pedagogo com habilitação em Administração Escolar de 1º e 2º graus e Magistério das matérias pedagógicas do 2º grau. Professor facilitador em Informática Aplicada à Educação pelo PROINFO - MEC